DevOps Engineer

O Piano que Carrego

Em maio de 2025, deixei registrado aqui um desejo: o de retornar ao técnico. Naquela época, o caminho parecia desenhado em linha reta, um retorno planejado à engenharia. Hoje, olhando para a minha mesa, sou tomado por uma pergunta inevitável: Como eu vim parar aqui?

Há um ano, eu ensaiava a minha saída da posição de liderança (ocupo um cargo de Subcoordenador de Infraestrutura). No entanto, o que aconteceu não foi uma despedida, mas uma imersão ainda mais profunda. Onde deveria haver um recuo, houve uma convocação intensa para tocar um novo instrumento-desafio: PIANO.

PIANO é a sigla para um Programa de Implantação e Acompanhamento da Nova Operação de TIC da empresa que, pela sua magnitude, redesenha não apenas a “infraestrutura” da instituição, mas o meu próprio cotidiano.

O que torna essa travessia suportável são as pessoas. Tenho o privilégio de caminhar com alguns profissionais extraordinários que brilham na execução e inspiram uma confiança rara. Saber que posso dividir o peso desse PIANO com gente tão capaz é o que impede que o cansaço se transforme em paralisia.

Ainda assim, habita em mim um lamento silencioso.

Sinto, muitas vezes, que estou “carregando o piano errado”. É um desconforto que nasce da percepção de que certas responsabilidades parecem ter trocado de endereço. Um programa dessa natureza, por exemplo, com sua alma de governança e estratégia, talvez devesse morar em outro setor do organograma.

Há, talvez por isso, uma espécie particular de solidão em ser um elemento de algo que você não deveria estar sustentando. Quando a parte que deveria dar o norte se ausenta ou se torna uma camada de abstração distante da realidade, sobra para quem tem o pé no chão da operação o trabalho de aparar arestas, preencher lacunas e garantir uma credibilidade.

Esse esforço de “iluminar áreas” e negociar o óbvio é o que mais desgasta. Não é o trabalho em si que cansa, mas a natureza dele. É a exaustão de estar em um papel que eu não mais desejava, fazendo um gerenciamento que deveria ser de outros, enquanto a minha vontade técnica clama por espaço há algum tempo.

O horizonte do programa é uma promessa distante.

E é justamente essa distância que me obriga a recalibrar a relação com o presente. Percebi que esperar o fim do PIANO para “voltar a ser quem eu quero ser” seria entregar ao programa um poder que ele não deveria ter: o de definir quem eu sou enquanto profissional.

Carregar um piano que não é seu ensina coisas que nenhum curso de liderança ensina. Ensina sobre os limites da lealdade institucional, sobre o preço silencioso de ser competente demais no lugar errado, e sobre a coragem necessária para admitir, em voz alta, que algo não está certo, mesmo quando todos ao redor parecem confortáveis com o arranjo.

Não tenho uma conclusão épica para oferecer. Não há virada de chave, nem final redentor. O PIANO continua ali, pesado e real. E eu continuo carregando, não por vocação, mas por uma mistura de responsabilidade, respeito pelas pessoas que caminham comigo e, talvez, uma teimosia silenciosa de não deixar a coisa desmoronar.

Mas registro aqui, como fiz um ano atrás, uma intenção: um piano é um instrumento longevo. A minha parte dessa partitura está sendo tocada, mas pretendo me levantar do banco e dar espaço para que outros se sentem e toquem as suas.